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Um Lugar ao Sol e o lugar do pobre na TV brasileira

Atualizado: 21 de abr.

Oscar Wilde, em 1890, começa o prefácio de seu 1° e único livro, dizendo que a arte não deve ser moral, em suas palavras: “Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos ou mal escritos. (...) A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. (...) Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. (...) O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.” Apesar dessa opinião ser muito verdadeira, ainda é um pensamento de mais de 100 anos atrás. Nos tempos atuais, é importante ter uma responsabilidade muito grande sobre as histórias que contamos, quando, onde, para quem, por quem e porque as contamos. Essa responsabilidade deveria ser especialmente aplicada em produções onde no roteiro há vontade de progresso, quando se mostra uma tentativa de passar uma mensagem liberal para a audiência e lutar contra opressões da sociedade. Podemos observar essa tentativa de militância na novela das 21h da Globo, Um Lugar Ao Sol, que acabou dia 25 de março, sexta-feira. Na novela escrita por Licia Manzo, há um enredo feminista focado na celebração de mulheres (brancas) mais velhas, como a Rebeca, por exemplo.


Precisamos, então, analisar cada aspecto da posição dessa arte quanto à problemática social: da escrita, do enredo, do papel que cada personagem representa na história, etc. Segundo a semiótica, cada objeto (e aqui, neste caso, objeto significa cada peça usada na escrita de um enredo para a novela mais importante da grade horária da tv brasileira) representa um significado mais profundo do que vemos em primeira instância, por exemplo; o leite não é somente alimento, mas também é tudo o que ele representa culturalmente para países distintos e todos os motivos que o levou a ser visto assim.


Sendo assim, um personagem ou até um plot twist no enredo de alguém vem de uma raiz muito mais profunda do que podemos ver, fazendo tal “árvore” crescer mais ainda.



Dito tudo isso, me pergunto o quão progressivo realmente é uma novela onde os brancos de classe altíssima reinam, tem perdão e vitórias, enquanto os personagens de classes sociais econômicas “inferiores” só são vítimas de tragédias durante a maioria dos capítulos, com exceção ao último. Pessoas brancas (e/ou ricas) não deveriam “aprender” que pessoas pobres e pretas são pessoas como qualquer outra, com sentimentos, aspirações e talentos, com foco no sofrimento dos protagonistas desses enredos, e sim pela naturalidade que deveria ser norma em vermos pessoas que vieram das favelas em posições de poder, ou seja, e se nós mostrarmos essas pessoas em lugares de felicidade e boa influência para conquistarmos um mundo menos desigual, ao invés de subcategorizar elas não somente como coadjuvante, mas também reduzindo-as à sua opressão? A comunidade LGBTQ+ fez imenso progresso nessa questão nos últimos anos, estamos vendo lentamente mais narrativas em filmes e tv (não necessariamente novelas da Globo) sobre pessoas gays sendo felizes e vivendo sua vida e seus amores normalmente, porém, quando se trata de pessoas pobres e pretas (por N motivos, maioria da população de classe sociais baixas do brasil é preta) não vemos tal progresso, somente demonstrações de dor e sofrimento.


Kara Brown, escritora baseada em Los Angeles, escreveu em seu artigo para Jezebel: “I’m So Damn Tired of Slave Movies”, traduzido do inglês “Estou muito cansada de filmes sobre escravidão” a seguinte indagação: “Quando filmes sobre escravidão, ou no geral, outros tipos de violência contra pessoas negras são os únicos tipo de filmes regularmente considerados ‘importante’ ou ‘bom’ por pessoas brancas, você se pergunta se a audiência branca só é capaz de aplaudir histórias onde pessoas negras são subservientes.” Ela também complementa que não quer assistir um corpo negro ser explorado para que pessoas brancas possam finalmente “entender”: “Estou cansada de atores negros não somente tendo que viver o trauma de atuar em um filme desse, mas também terem poucas outras opções para escolherem.”


Há certas obras artísticas em que sua moral política está a partir da brutalidade da verdade, em peças onde se mostra a realidade da vida para se provar um ponto, porém, em Um Lugar Ao Sol há uma clara tentativa de dialogar com o público para “abrir nossas mentes”.


Uma breve análise desse descaso durante a novela pode ser feita a partir de duas namoradas de Ravi: Joy e Thaiane. Joy, mãe, pixadora e branca de dread, tinha em sua trilha sonora um rap sobre empoderamento que tocava toda vez que ela roubava dinheiro de seu namorado. Além disso, ela foi muito retratada como uma garota que além de problemática, é livre, talentosa e sensual. Já Thaiane, namorada de Ravi durante curtos episódios na reta final da trama, é usada somente como empregada por todos os personagens. Ela traz seu passado doloroso, onde foi criada quase como mão de obra escrava, para o Rio de Janeiro em busca de sua liberdade e sua avó perdida, Dona Noca. Porém, passa a maior parte do tempo calada atrás da personagem de Marieta Severo, além de somente conquistar amor no penúltimo capítulo. É uma triste injustiça com a atuação de Georgina Castro que merece muito mais.



Na crítica do filme Antebellum, escrita por Angelica Jade Bastién para Vulture, ela analisa: "O efeito é completamente distanciador. Vale a pena explorar a dor e resistência de se mover na América enquanto pessoa Negra, mas essa exploração não deveria acontecer custando a humanidade desses personagens”, análise que pode ser comparada ao Ravi ou Dalva, cozinheira do restaurante de Noca. Em Hollywood vemos muitos filmes vazios de significados e aprendizados sobre opressões, e assim como Um Lugar Ao Sol, essas produções também são majoritariamente escritas, dirigidas e produzidas por pessoas brancas.


Imagine agora, o impacto que geraria vermos no horário com mais audiência do Brasil, filhos de porteiros e faxineiros se formando com sucesso em faculdades, ou pessoas pretas vivendo romances de tirar o fôlego? Jade Bastién também disse: “Eu estou cansada de sofrimento ser a lente principal pelo que entendemos a identidade Preta. Estou cansada de querer tanto felicidade Preta e representativa Preta que migalhas parecem uma refeição. Eu estou cansada de filmes sobre escravidão se recusando a reconhecer a vida interior de mulheres pretas, até quando suas personas são usadas como ferramentas para que cinematógrafos explorem os horrores dos escravizados. Eu estou cansada da fina caracterização e a mensagem social submissa que pessoas pretas recebem em suas representações.” É necessária a humanização.




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