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Não toque na minha coroa

Atualizado: 20 de Jan de 2020


As tranças africanas, assim como os penteados afro no geral, sofreram várias ressignificações ao longo dos séculos. Ainda hoje conecta e resgata a comunidade negra a sua ancestralidade, além de permear historicamente discussões e articulações importantes sobre identidade negra, cultura e política. Pensando especialmente nessa década, em que a mídia tenta as vender a todo custo como uma fashion trend, é importante trazer a memória suas origens e significados para afirmar que:


Não. Elas não são uma tendência da moda.

Elas são sobre identidade.

Reconhecimento.

Ancestralidade.


A trança nagô


As origens das tranças afro datam milhares de anos e possuem inúmeros significados fundados nas culturas das civilizações africanas. A descoberta de esculturas da civilização Nok, que evidenciam mulheres com tranças comumente chamadas por "nagô" nos estados do Rio de Janeiro e da Bahia, são de aproximadamente 500 a.C. A civilização Nok foi um grupo da região do Norte da Nigéria, cuja cultura floresceu até o século II A.D.


Trançar era uma espécie de arte social. No continente africano do início do século 15, o cabelo tinha uma função para além da estética: ele era um transmissor de mensagens na maioria das sociedades da África Ocidental (como os Mandingas e Iorubás, além de outros grupos étnicos que preencheram os navios negreiros para o "Novo Mundo"). Pelo tipo de penteado - seu desenho e o tipo de material, era possível identificar a qual tribo a pessoa pertencia, como também sua religião, grupo étnico, condição social e outros fatores. Em alguns casos, o estilo da nagô e a matemática envolvida para desenhar sua geometria, poderia indicar as origens geográficas de um indivíduo e seu sobrenome.


O 'Novo Mundo'


Existem diversas narrativas sobre o uso das tranças no chamado 'Novo Mundo', ou seja: após os africanos terem sido colonizados e retirados de seu lar.


Na América Latina, mais especificamente em solo colombiano e brasileiro, as tranças nagô eram usadas da forma tradicional, para se comunicar. Porém, num contexto em que a cultura do povo negro é cruelmente reprimida e hostilizada como o da escravidão, nossos ancestrais lutaram e resistiram, utilizando a nagô para desenhar rotas de fugas que ligavam aos quilombos. As mulheres negras trançavam as cabeças uma das outras e quando prontas, podiam usá-las para chegar ao lugar onde encontravam refúgio.


Segundo o "Know Your Caribbean", no Instagram, as tranças também eram usadas para esconder arroz e sementes no cabelo, para que assim, pudessem se alimentar na jornada para esse Novo Mundo. O vídeo a seguir, gravado na comunidade Maroon do Suriname - Maroons são descendentes de africanos que se estabeleceram em assentamentos independentes nas florestas tropicais -, mostra o modo como os seus ancestrais praticavam isso.



Bantu Knots


Os bantu knots são pequenos coquinhos feitos ao redor de toda a cabeça. Se você é uma mulher negra, muito provavelmente já usou em algum momento da vida, principalmente durante a infância. Minha mãe as chamava de "pitózinhos" - por não conhecer a verdadeira nomenclatura - e minha avó materna penteava seu cabelo da mesma forma quando pequena. Porém, se quando criança, eu os usava para dormir e simplesmente proteger o cabelo, a coisa mudou. Nos últimos anos, após aparecer na cabeça de mulheres negras como Rihanna e Jada Pinkett-Smith, os bantu knots passaram a ser usados em diferentes ocasiões pela comunidade negra.


Bantu significa nada mais, nada menos, que "gente" e faz referência a mais de 400 grupos étnicos do continente africano, como o povo Zulu, do qual foi originado esse estilo de penteado afro.

Michel Huet/Gamma-Rapho/Getty Images

Tranças Fulani


A tribo Fulani - ou Fulas - é um povo principalmente muçulmano, espalhado por muitas partes da África Ocidental. Esse grupo se encontra sobretudo na Nigéria, Mali, Guiné, Camarões, Senegal e Níger. É também a maior comunidade de pastores nômades no mundo.


As tranças feitas pelas mulheres Fulani chamam atenção pela sua extravagância. Usualmente, o cabelo é trançado com extensões, com uma única fileira de trança no meio. Com o penteado finalizado, as tranças são deliberadamente adornadas com moedas, conchas, contas e fitas metálicas.


Por muito tempo, e devo dizer, indevidamente, as tranças Fulani foram conhecidas como "as tranças da Alicia Keys", sobretudo nos Estados Unidos, onde o povo Fulani é fortemente conectado a história de escravidão. Após o videoclipe da icônica Fallin, o penteado virou quase que a assinatura da estrela por muitos anos, especialmente na década de 2000, mas a sua origem não era uma preocupação para a maior parte do público que apreciava o penteado.




Box braids e a transição capilar