Resenha | Pessoas Normais

Pessoas normais tem uma escrita aparentemente despretensiosa, mas que esconde muitos pontos importantíssimos por trás.


Foto por Lorena Matos

O livro foi escrito por Sally Rooney e publicado em 2018, tendo sido publicado pela Companhia das Letras aqui no Brasil.


Ao ler sem ter conhecimento prévio, confesso que pensei que mais um romance se

desenrolava, então senti grande impacto quando enxerguei grandes questões que o livro aborda.


Podemos começar nossa análise pela capa e título do livro, afinal, no fim, é perceptível que nada nesse livro é realmente despretensioso.


O título “Pessoas Normais” remete a uma realidade comum e, de fato, vários problemas que atingem a sociedade são tratados de forma real na narrativa. Além disso, a capa mostra o que imaginamos ser nossos dois protagonistas em uma lata de sardinha, juntos e espremidos… E apenas realizando a leitura fica claro o quanto isso faz sentido.


Mariannne é uma garota rica, sem amigos em sua escola e com diversos problemas em

casa. Ela estuda na mesma escola que Connell, um garoto popular, pobre e que acaba por ficar mais próximo de Marianne por ir buscar sua mãe, que trabalha como empregada doméstica para a família da garota. A história se passa na Irlanda.


Foto por Lorena Mattos

Os dois sentem atração um pelo outro e acabam por se envolver, porém, com uma

condição… que ninguém soubesse. Aqui, vemos a insegurança de Connell em relação a

sua reputação dentro de um grupo, e a necessidade de esconder Marianne por ter uma

realidade social tão diferente da dele.


O livro se passa em diversas etapas das vidas dos mesmos, com uma escrita sem

travessões ou indicações claras de falas (o que levei umas 80 folhas para acostumar,

confesso) e uma habilidade em passar por anos das vidas dos dois sem causar confusão na história, Sally Rooney trata de jovens que precisam lidar diariamente com as consequências não só de suas escolhas, mas do meio em que estão inseridos, de onde vieram e de quem se tornaram por conta de terceiros.


Há muita violência nesse livro, e não falo de sangue espalhado por todo canto, mas de uma violência que podemos enxergar em nosso próprio cotidiano se pararmos por 5 minutos e olharmos ao redor, uma violência que deixa marcas internas e eternas, uma violência que, muitas vezes, simplesmente é parte da vida de pessoas normais.


Foto por Lorena Matos

Nos deparamos com as diferenças entre classes sociais, status social, mudanças de

ambiente, violência doméstica, submissão, depressão e tudo isso sem que, em um grande passe de mágica, tudo se resolva para os protagonistas. A violência que falo acima vai além das primeiras ideias que essa palavra remete, pois é, também, a violência da dependência do dinheiro, das relações sociais, da imagem que precisamos manter, das dificuldades familiares e o desafio de crescer, aceitar que nada do que passou volta atrás e que é sua responsabilidade fazer com que suas decisões valham a pena.


O Connell tem MUITAS questões mesmo, os dois tem, eu gosto de como é mostrada a

realidade de cada um dentro do seu contexto… Mas, como mulher, não pude deixar de ter uma empatia mais profunda e ter a atenção mais voltada para a Marianne, que sofria violência doméstica e é desprezada de forma medíocre pela família, especialmente pela figura masculina do irmão. E isso afeta muito a relação dela com homens em geral, gerando, inclusive, uma das grandes questões que Connell tem em relação a ela.


Em um trecho, é narrado o seguinte:

“Sempre houve algo dentro dela que os homens quiseram dominar, e o desejo que têm de dominação pode ser muito parecido com a atração, até mesmo com o amor. Na escola, os garotos tentavam arrebentá-la com crueldade e desprezo, e na faculdade os homens tentavam fazê-lo com sexo e popularidade, tudo com o mesmo objetivo de subjugar a força de sua personalidade.”

Esse momento do livro, em especial, mexeu muito comigo, e acredito ser um demonstrativo intenso e real do que você vai encontrar neste livro.


Acredito que isso seja muito necessário, encontrar em uma narrativa envolvente muitas

verdades sendo colocadas em nossa frente, sem filtros.


Sem um final feliz de conto de fadas, pessoas normais começa e termina tratando a normal brutalidade de diversos aspectos de nossa vida.


  • Capa comum: 264 páginas

  • Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (30 de setembro de 2019)

  • Idioma: Português

  • Autora: Sally Rooney

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'Uma história única e envolvente sobre dois jovens que devem enfrentar a eletricidade do primeiro amor em meio às sutilezas das classes sociais e dos problemas familiares. Sally Rooney é a voz da geração millennial."


O livro virou série pelo streaming Hulu, e será lançada dia 29 de abril. Confira o trailer.





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