Resenha: "Mulheres Que Correm com os Lobos"

Atualizado: 14 de Mai de 2019


Clarissa Pinkola é uma psicanalista com ascendência mexicana de Swanbian que conta que sempre foi fascinada por lobos. Guardiã dos velhos costumes, ela descreve como muito de suas histórias foram baseadas em suas crenças familiares e que seu livro foi inspirado em seu estudo sobre animais selvagens – em especial os lobos Canis Lupus e Canis Rufus. Ela conta que sempre teve um certo fascínio pelos animais e que eles sempre apareceram para ela de alguma forma, até em sonhos. (Uma vibe bem makube, né?)

Como uma boa contadora de histórias, cada capítulo conta uma história ou mais história seguida de uma análise psíquica sobre o que ele tentou mostrar para a mulher selvagem, dentro daquele contexto.


Em seu primeiro capítulo, “O Uivo: a Ressureição da Mulher Selvagem”, ela conta que a mulher lobo é o espirito da grande mãe da natureza que recolhe os ossos dos animais que morrem no deserto daquela região de sua descendência mexicana e que os protege.

Já em “A Tocaia Ao Intruso” ela conta um pouco sobre o barba azul e faz uma reflexão sobre irmãs mais novas que geralmente tem tendência a serem protegidas pelos mais velhos por serem consideradas ingênuas demais para lidar com as situações do mundo. Nessa parte, a autora provoca uma reflexão sobre a forma como a mulher geralmente é tratada como inocente e frágil quando ela deveria ser tratada como um igual.

No terceiro capítulo intitulado “Farejando Os Fatos” ela conta a história da Boneca Vasalisa, a sabida. Esse capítulo contem nove pontos e conta uma história similar à da Gata Borralheira, que é mundialmente conhecida. Sua mãe falece e seu pai se casa com uma madrasta que tem duas filhas que a tratam muito mal e a deixam com todos os afazeres da casa.


Esse capítulo foi particularmente o meu favorito, com o conto que mais me tocou no livro. A forma como a Vasalisa é vista e como a história é aprofundada fez uma relação clara com o capítulo oito do livro, que é uma análise mais profunda sobre a perda brutal nos contos de fada em que vivemos nos dias de hoje.


O quarto capítulo "O Parceiro e a União com o Outro" nos conta do menino pelo homem selvagem, o Manawee. É uma conhecida história polinésia sobre o Sagrado Masculino, contando sobre o que é o homem selvagem e a busca da até então mulher selvagem por ele. (Tipo um encontro de espíritos.)


O capítulo cinco se intitula “A Caçada: Quando o Coração é um Lobo Solitário” e apresenta a triste história da Mulher Esqueleto, uma jovem que sempre desobedeceu às ordens do pai e que um dia se apaixonou e decidiu se casar com alguém que o progenitor desaprovava. Mesmo com várias reviravoltas, ela acaba sendo jogada no fundo do mar e permanece lá, com seus cabelos esvoaçantes, até que um dia um pescador muito solitário acaba jogando a rede e trazendo esse esqueleto de volta. Ficando com pena dele por saber ser o esqueleto de uma mulher, ele acaba levando-o para casa e, lá, uma magia acontece com ele.


No capítulo seis “A procura da nossa turma: A sensação da integração” a história que é contada parece muito uma história infantil que tudo mundo conhece: a do Patinho Feio, isso mesmo. Acredito que é um dos capítulos mais interessantes do livro, em especial para aquelas pessoas que sentem como se não pertencessem ou se encaixassem em lugar nenhum, sempre parecendo estar deslocadas e desconfortáveis. Esse capítulo em especial fala sobre os vários tipos de mãe e foca em confortar as pessoas que se sentem perdidas na vida. Ele é um ‘’calma, no final vai dar tudo certo’’.

Já em “O corpo de jubiloso” o foco é no corpo da mulher já anciã. Conta a história da Mulher Mariposa, um conto que vem do México e mostra o poder da mulher que já chegou a uma idade mais avançada, falando de tudo que aconteceu até ela chegar ali.

Na “Preservação do Self: A identificação das armadilhas”, Clarissa fala sobre a Mulher Braba, descrita como aquela mulher que não escuta, é bem teimosa e tem mania de insistir em coisas que lhe causam sofrimento. Ela conta daquela mulher que erra, sofre e não aprende de jeito nenhum (Vocês lembram da Mulher Esqueleto? Então…). Nessa capítulo o conto é sobre uma órfã que gostava muito de sapatinhos e mesmo que fosse proibida de usa-los ela continuou insistindo nele e acabou sofrendo um terrível acidente como lição.


Em “A volta ao lar: O retorno ao próprio Self” é um conto sobre as mulheres focas, mulheres que, em noites de lua cheia saíam do mar, despiam suas peles de foca e dançavam sobre o luar até que aparecesse um homem muito solitário que gostasse de se casar. Então ele acaba roubando e escondendo uma das peles que elas deixavam e obrigando uma das mulheres místicas a se casar com ele, tendo juntos um filho.


“As águas claras: O sustento da vida” traz até nós a história de La Llorona, um conto muito conhecido e considerado sobrenatural. É sobre uma mulher que se apaixona perdidamente por um homem que é infiel e então em profunda tristeza ela se afoga em um rio junto com o seu filho. Dizem que ela passa toda sua pós-vida procurando seu filho nas profundezas das águas e que seu choro ainda pode ser ouvido. Nesse mesmo capítulo Clarissa nos conta mais uma história, desta vez sobre uma jovem que desperdiça seus sonhos e sua imaginação com coisas que são inviáveis para ela sendo que, naquele momento, ela deveria ter outras prioridades.


O livro conta com mais alguns outros contos que tem como foco provocar uma reflexão na mulher sobre o feminismo e a forma como enxerga a sua vida particular. Uma leitura muito produtiva e que estimula uma jornada pelo autoconhecimento através das lições passadas em seus contos.

‘’Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.’’

- Clarissa Pinkola Estés




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