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Resenha | Cinderela Está Morta

Atualizado: 21 de abr.

E se a história do tradicional conto de fadas conhecido internacionalmente for uma grande farsa e fomos forçados a acreditar nesta narrativa sem questionar nenhum tópico? Uma mentira tão bem contada, ao longo de 200 anos, que se torna absoluta. É a partir do inconformismo sobre a “verdade” e o questionamento das duras e autoritárias leis que Cinderela Está Morta surge.


O livro se inicia com “Cinderela está morta há duzentos anos” já retirando qualquer possibilidade de modificação real time na história da princesa, além de deixar evidente que ela não é a personagem central do conto, sendo assim, os eventos no tempo presente são necessariamente reações ao originário.


O livro conta a história de Sophie, uma jovem negra, lésbica, que vive em Lille, sob governança do autoritário Rei Manford. No reino, não pode ser quem é, amar quem ama, deve obedecer rigidamente aos decretos, ser pura de alma e espírito, como Cinderela foi um dia, para que [quem sabe] tenha o privilégio de receber a visita da Fada Madrinha.


Os Decretos de Lille:

  1. Deve haver pelo menos uma cópia nova de Cinderela em todas as casas.

  2. O baile anual é um evento obrigatório. Três visitas são permitidas, depois das quais as participantes serão consideradas infratoras.

  3. Participantes de uniões não sancionadas e fora da lei serão considerados infratores.

  4. Todos os membros das famílias de Mersailles deverão designar um homem, maior de idade, para ser o chefe da família, e seu nome ficará registrado no palácio. Todas as atividades praticadas por qualquer membro da família devem ser sancionadas pelo chefe.

  5. Por segurança, mulheres e crianças devem estar em suas residências permanentes ao badalar das oito horas, todas as noites.

  6. Uma cópia das leis e decretos vigentes, além de um retrato autorizado de Sua Majestade, deve estar à mostra em todas as casas, o tempo todo.


A história é uma excelente obra para questionarmos sobre a verdade daquilo que somos induzidos a acreditar. Kalynn Bayron, trouxe o protagonismo feminino e LGBTQIA+ na medida necessária em conformidade com a cidade criada, e ao longo das páginas o ideal de que a madrasta e as “irmãs feias” são as grandes vilãs e as cai por terra, aqui elas são a resistência, são as que lutam pela liberdade e direitos das mulheres. Qua a fada madrinha, angelical e doce como na história não faz “Bibidi Babidi Boo”, mas uma bruxa (não no sentido negativo da palavra como é imposto socialmente) “tradicional”. E o príncipe, de Encantado não tem nada, mas merece o título de monstro repetido várias vezes por Sophia.

“Não me surpreende que mesmo os homens que são considerados plebeus pelo palácio estão posicionados acima de todas as garotas aqui.”

As personagens deste livro, desde a época de Cinderela, são mulheres à frente de seu tempo, lutando contra o arbitrário carrasco que ocupa o trono. Claro que há as que aceitam e seguem as leis um uma cegueira absoluta quanto a forma que são tratadas, ou melhor, desprezadas, assim como as que seguem as tradições por medo das punições e sacrificam seu bem estar, apanham e são violentadas mas são “eternamente gratas” por ter suas cabeças junto aos corpos.


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