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Entrevista | Clara Alves fala sobre seu livro "Romance Real"

Londres é cenário das comédias românticas clássicas, atrai quem adora curiosidades envolvendo a realeza britânica e é também o destino dos sonhos de todos os fãs da One Direction. Dayana, a protagonista de “Romance real”, se encaixa perfeitamente em todos os itens mencionados, mas não poderia estar mais triste quando precisa se mudar para a terra da rainha após a morte de sua mãe.

Novo livro de Clara Alves, a jovem Dayana precisa deixar o Rio de Janeiro para começar uma nova vida no Reino Unido, local onde sempre sonhou em conhecer ao lado da Dandara. De luto, ela precisa se adaptar à rotina em outro país, tentar reatar os laços com o pai, que não a vê a quase dez anos, apreender a conviver com a madrasta e com a sua nova irmã.


Em meio a tantas mudanças, ela não esperava se envolver com uma ruiva misteriosa que cruzou seu caminho (literalmente) durante uma fuga do Palácio de Buckingham e que parece ter uma conexão com a família real.


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“Romance Real” é uma história doce e muito necessária. Depois de décadas associando princesas ao “estereótipo Disney”, finalmente chegou a hora de levar representatividade para quem “sempre teve o protagonismo nos contos de fadas negado”. Essas são palavras usadas por Clara na dedicatória do livro e em entrevista ao The Feminist Patronum, a autora conta detalhes de como foi escrever a história de amor mágica de Dayana e Diana, que foge da perspectiva heteronórmativa da realeza.



THE FEMINIST PATRONUM: Como foi o processo de escrita de "Romance real" durante a pandemia?

CLARA ALVES: Romance real está sendo escrito desde 2018, na verdade, antes até de Conectadas. O processo todo dele tem sido bem difícil. Deixei o projeto de lado a primeira vez pra escrever Conectadas e não consegui retomar por um tempo. Na época, o livro ainda era um romance hétero, e estava sendo postado no Wattpad. Muita gente ficou me pedindo pra voltar, e eu retomei uns meses depois. Mas Conectadas foi muito minha chavinha sendo virada — eu me assumi como bi pra minha mãe, estava mais bem resolvida comigo mesma, tinha terminado um relacionamento. Eu sabia que Romance real não estava mais funcionando do jeito que era, por isso acabei parando de postar de novo.

No início da pandemia, minha agente sugeriu que eu tirasse a história do Wattpad e reformulássemos a história para apresentar para a editora. Nessa época, porém, eu estava enrolada com a divulgação de Conectadas, com medo das vendas despencando e minha energia foi toda voltada para isso. Claro, a pandemia também não ajudou. Muito da minha inspiração vem do dia a dia, das coisas que vejo, de andar na rua e observar o mundo. Estar presa dentro de casa acabou me tirando boa parte dessa ânsia por escrever. E aí ficava ainda mais difícil ter ideias para o desenvolvimento do livro.

Foi em 2021, quando minha editora me deu um feedback com algumas sugestões, que a história pareceu trilhar seu caminho na minha mente. Acho que com a perspectiva das vacinas, com Conectadas fazendo sucesso e com a possibilidade de ter mais um livro publicado, as coisas ficaram mais leves para mim e enfim consegui terminar.


TFP: No livro, vemos uma família real britânica muito mais aberta à diversidade de gênero e racial, o que infelizmente ainda é bem diferente do que vemos fora da ficção. Como foi trazer uma versão mais otimista e moderna da monarquia?

CA: A primeira versão de Romance real foi escrita com a verdadeira família real. Era legal brincar com as possibilidades, mas um pouco limitante. Quando decidimos criar uma realeza britânica fictícia, eu percebi que estava livre para sonhar — e não é esse todo o propósito de escrever ficção? Por mais mágica que seja existir uma família real hoje em dia, a impressão que dá é que foi algo que parou no tempo. E poder trazer essas questões, esses debates tão importantes, pra um contexto conservador como a nobreza britânica nos ajuda a refletir o quanto ainda precisamos mudar nos nossos governos e na nossa sociedade — não só no contexto da monarquia.


TFP: Qual é a importância para os jovens leitores consumirem romances em que as duas garotas protagonistas vivem um "conto de fadas da vida real"?

CA: É o que eu digo na dedicatória de Romance real: esse é um livro para todas as pessoas que nunca puderam se enxergar em contos de fadas. Ter esse tipo de história é como dizer: a gente também pode ter o nosso felizes para sempre. É semear um pouco de esperança no coração de quem vive em constante dúvida e medo sobre quem é.


TFP: "Romance real" é também uma história sobre luto, abandono e perdão. De que forma as experiências de Dayana podem confortar os leitores?

CA: Eu espero que, assim como a Dayana, quem quer que esteja passando por situações difíceis como a dela consiga enxergar que existem formas de sair dessa. Que realmente é difícil e às vezes a gente se sente sem chão, sem ter a quem recorrer, mas que precisamos nos permitir pedir ajuda e deixar que as pessoas que nos amam nos ajude. E que vai passar. Dói, talvez doa por muito tempo, mas vai passar.

TFP: Assim como a Dayana, muitas pessoas passaram a conhecer a fibromialgia a partir dos relatos da cantora Lady Gaga. Quais foram os cuidados ao incluir a doença no arco de uma das personagens?

CA: A maior preocupação, é claro, é sempre escrever com responsabilidade. Não acho que possamos fechar os olhos, e é importante que a gente fale e debata assuntos importantes como esse, pra que cada vez mais pessoas saibam, entendam, aprendam. Eu tenho conhecido pessoas que se descobriram com a fibro nos últimos tempos, apesar de ainda haver um preconceito muito grande em cima da doença — acredito que de um jeito muito parecido com o que rola com doenças mentais. Então eu senti que precisava falar sobre isso. Mas é sempre difícil retratar vivências que não são suas. Por isso, pesquisei bastante sobre a fibromialgia antes de escrever o arco da Georgia, além de ter consultado minha própria psicóloga e outras terapeutas que conheço para confirmar algumas informações.


TFP: A Dayana cresceu consumindo vários filmes situados em Londres, como "Um Lugar Chamado Notting Hill". E você, quais são seus favoritos?

CA: Também amava Um Lugar Chamado Notting Hill, e outros como Tudo Que Uma Garota Quer, O Diário de Bridget Jones. Tem ainda Garota Mimada e Orgulho e Preconceito, que se passam na Inglaterra, mas não na capital. A verdade é que eu sempre fui muito fissurada pelo Reino Unido, especialmente por conta de Harry Potter e da minha banda favorita da adolescência, o Mcfly. Foi inevitável escrever um livro que se passa lá.


TFP: Muitas pessoas crescem tendo em mente as princesas da Disney como referência quando se trata de princesas ou até mesmo os clássicos da sessão da tarde, como "O Diário de uma Princesa", mas esse cenário vem mudando nos últimos tempos. Como figuras como a Diana e a Rainha Diana ajudam a mudar essa perspectiva?

CA: A Disney consagrou muito essa nossa obsessão por príncipes e princesas. A gente cresce vendo e ouvindo sobre contos de fadas, sobre os tempos de reinado (ainda que de uma forma totalmente glamorizada), mas todas essas histórias são sempre muito heterocisnormativa e muito tradicionais, patriarcais. O que eu queria com Romance real era fugir desses padrões e mudar o protagonismo dessas histórias, mas ainda trazendo o toque de magia que os contos de fadas sempre tiveram e pelo qual sempre fomos apaixonados. Temos hoje na Inglaterra uma monarca mulher — mas por que essa rainha não pode romper com a tradicionalidade da monarquia? Por que não ter uma rainha divorciada, que fale sobre diversidade, que use seu poder como uma forma de levantar pautas importantes? Que abrace a comunidade, principalmente quando ela está dentro da própria família?


TFP: Ok, precisamos falar sobre One Direction! As músicas na epígrafe foram escolhidas antes ou depois dos capítulos serem finalizados? Elas influenciaram de alguma forma os rumos da história?

CA: Foram escolhidas depois! Eu escolhi trechos que tivessem a ver com o contexto de cada capítulo, então elas não chegaram a influenciar o rumo da história, não.


TFP: E claro, você acredita no comeback do grupo?

CA: Confesso que não tenho muitas esperanças sobre isso. Os meninos estão bem demais na carreira solo e eles certamente passaram por muitas questões difíceis na época da banda. Mas uma garota pode sonhar com tempos melhores, não é mesmo?


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