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Entrevista: Érico Assis conta como foi traduzir as hqs dos 70 anos de Snoopy

“Se considerar o projeto dos 50 e tantos livros como um projeto só, é um dos maiores em que eu já me envolvi como tradutor (...) No final, terei traduzido umas 3000 tiras. É uma experiência que vai ficar.”

Créditos: Editora Planeta DeAgostini

Recentemente a Editora Planeta DeAgostini lançou uma coleção exclusiva em homenagem aos 70 anos de "Snoopy, Charlie Brown & Friends, A Peanuts Collection". As edições contam com as tirinhas dominicais, com os quadrinhos de 1952 até os anos 2000. Os especialistas em Charles M. Schulz: Alexandre Boide e Érico Assis.


Aproveitando esta edição especial, entrevistamos Érico Assis, que é tradutor inglês – português desde 2008, e traduz, sobretudo, histórias em quadrinhos, não-ficção e literatura infantil. Além disso, é o responsável pela tradução "Snoopy, Charlie Brown & Friends, A Peanuts Collection", a homenagem relativa aos 70 anos do cão mais famoso de todos os tempos. Confira na íntegra:


The Feminist Patronum: Como descobriu seu gosto para a tradução? Foi isso que o levou à pesquisa acadêmica?

Érico Assis: Acho que as duas coisas têm a ver com meu gosto por leitura. Gosto bastante, mas bastante mesmo, de literatura, de quadrinhos, de reportagens longas, de entrevistas. Metade do trabalho como tradutor é ler. Metade do trabalho na pesquisa acadêmica – pelo menos nas pesquisas que eu fiz – é ler. Acho que eu encontrei um jeito de combinar esse meu prazer com a leitura ao meu ganha-pão.

TFP: Seu leque de trabalhos é grande, vai desde livros infantis à ficção, não ficção, e vários outros. Para você, como é estar em contato com essa variedade de gêneros e autores?

EA: Considerando o que coloquei na primeira resposta, é maravilhoso, né? Mesmo que aconteça de eu traduzir algo que eu não leria por prazer, ainda é uma leitura em que eu aprendo, em que eu me envolvo. E variar sempre faz bem. Ficar só em quadrinhos, ou só em literatura, ou só em infantis, ou só em um gênero, não faria bem pra minha cabeça.

TFP: Baseado nesse sentimento, nessa experiência, e como foi ter a oportunidade para traduzir a Snoopy Collection e como está sendo esse processo. Além de fazer parte deste legado, hoje em seus 70 anos?

EA: É uma honra, um aprendizado e um prazer. De um lado, é minha oportunidade de ler Peanuts com uma atenção que eu não teria de outra forma. Do outro lado, tem o desafio de dar voz em português ao Charlie Brown, ao Snoopy, à Lucy, à Patty Pimentinha etc. de um jeito que respeite o que os leitores já conhecem dos personagens. Gosto muito dessas duas funções.


TFP: Como esta experiência irá influenciar em seus próximos trabalhos, tendo em vista a dimensão deste material?

EA: Se considerar o projeto dos 50 e tantos livros como um projeto só, é um dos maiores em que eu já me envolvi como tradutor. Além disso, eu costumo traduzir HQs de mais fôlego, não tanto tiras. No final, terei traduzido umas 3000 tiras. É uma experiência que vai ficar.

Além disso, certamente é o maior projeto em que eu me envolvi como, digamos assim, jornalista-pesquisador: ao final vou ter escrito por volta de 300 páginas de textos curtos em torno de Peanuts. É tal como a experiência de escrever um livro, portanto.


TFP: Dentro deste trabalho, como se deu o processo de se tornar um especialista, ter efetivamente uma curadoria em Charles Schulz, principalmente em relação ao Snoopy e a turma Peanuts, que marcou (e marca) várias gerações?

EA: Eu já havia lido a biografia de Charles Schulz, já tinha a coleção completa dos 50 anos da tira e conhecia várias anedotas dos bastidores de Peanuts. Quando embarquei no trabalho, pedi à Planeta de Agostini uma lista de livros sobre a tira e eles me atenderam: tenho por volta de vinte livros sobre Peanuts e sobre Schulz e estou me abastecendo em todos para escrever os textos. Fora todas as referências que existem na internet, desde os sites de fãs até o material do Charles Schulz Museum.


Charles Schulz | Créditos: Editora Planeta DeAgostini

TFP: Sabemos que você tem dois filhos, e parte do material que você trabalha é direcionado ao nicho que eles fazem parte e, inevitavelmente, acabam consumindo. Como se sente atuando nessas duas instâncias, do profissional e da paternidade?

EA: É muito bom traduzir material que eles já podem ler, eles entenderem o que o pai faz. Também tenho uma sobrinha e os amigos dos meus filhos, todos na mesma idade, e acho interessante quando eles associam o nome no livro ao “tio”. Imagino que desmistifica essa “aura” do livro na cabeça deles: opa, esse livro foi feito por uma pessoa que eu conheço!

Torna a experiência mais próxima e, quem sabe, mostra que eles mesmos podem fazer algo do tipo, como escrever, desenhar, publicar. Eu não tive essa experiência na infância e acho que fez falta.

TFP: Se pudesse resumir sua experiência com “Snoopy, Charlie Brown & Friends, A Peanuts Collection” em uma palavra, qual seria?

EA: Pode ser duas? “Que puxa!”

TFP: Como é o processo de preparação desses textos para a tradução?

EA: Não difere muito de outras traduções: encontrar o tom certo da linguagem, a voz de cada personagem e, a partir daí, reescrever o que está sendo dito, mas em outra língua. Assim como nos outros trabalhos, tem alguma pesquisa para conhecer termos ou bordões.

Talvez o diferencial seja o histórico que Peanuts tem de tradução no Brasil, tanto nas tiras quantos nos desenhos animados. Tem as traduções de nomes de personagem que se consagraram, como Chiqueirinho (Pig-Pen) e os que não se consagraram, como chamavam Charlie Brown de “João Barbosa” e Snoopy de “Xerêta” nos anos 1960. Tem os bordões, como “que puxa!” (good grief!), a Patty Pimentinha sempre chamar o Charlie Brown de “Minduim” (“Chuck”), a paixão do Snoopy por “gengibirra” (“root beer”). Mas esse tipo de pesquisa, repito, também acontece em outros trabalhos.