Crítica: O Diabo de Cada Dia

O Diabo de Cada Dia (The Devil All the Time) é, para se dizer o mínimo, inquietante. Dirigido por Antonio Campos e baseado na obra de Donald Ray Pollock, o longa traz uma narrativa quase literária e um narrador onisciente que parece ser o único a saber os detalhes do desenrolar dos fatos. O espectador só descobre no decorrer dos 138 minutos de filme que as diferentes tramas que, de início, parecem desconexas, se enroscam como um nó para criar uma única história sobre os extremos da religião e da violência.


Logo no começo, somos apresentados à muitos destinos cruzados no interior dos estados de Ohio e Virgínia, EUA. Retornando da II Guerra Mundial com muitos demônios internos após ter visto o pior do ser humano, o jovem Willard Russell (Bill Skarsgard) encontra em Charlotte (Hayley Bennett) uma esperança para retomar sua fé. Já a religiosa Helen (Mia Wasikowska) viu no pregador fanático Roy Laferty (Harry Melling) a chance de ter a família que queria.



Nos dois casos, porém, a devoção fervorosa destes homens se torna também sua ruína que, anos mais tarde, acaba refletindo em seus filhos, Arvin Russell (Tom Holland) e Lenora Laferty (Eliza Scanlen).


Como herança dos ensinamentos do pai, ainda que de forma inconsciente, Arvin se vê como responsável por corrigir as injustiças do mundo, já que, para ele, a justiça divina é sempre colocada em cheque. Por outro lado, Lenora sempre viu a religião como um refúgio, mas com a chegada do traiçoeiro pastor Preston Teagardin (Robert Pattinson) à cidade, ela vive seu próprio inferno na Terra.



Esses personagens, e outros mais, como a dupla de serial killers Carl e Sandy (Jason Clarke e Riley Keough), e o xerife corrupto Lee (Sebastian Stan), te prendem tanto ao enredo que se torna quase desesperador entender como as peças deste quebra-cabeça se encaixam. No fim, tudo está relacionado à religião e como as pessoas tomam decisões muitas vezes moralmente questionáveis por conta da cegueira que pode ser causada pela crença e, em outros casos, pela descrença.


O debate, porém, não sobre ter fé ou não, mas como pautas ideológicas podem ser usadas para manipular os mais vulneráveis, a dualidade do ser humano e, de certa forma, como a maldade e a hipocrisia permeiam diversos aspectos da sociedade. É uma reflexão ousada em um suspense bastante denso.


Além do final bem amarrado, o elenco é impecável. Em cerca de 40 minutos de tela, Pattinson mais uma vez mostra sua versatilidade para a atuação, com um trabalho de voz incrível, e ganha destaque como um dos - se não o - personagem mais odioso do longa. O protagonista de Holland também o colocou em outro patamar, uma interpretação que foge de seus trabalhos anteriores.


O Diabo de Cada Dia estreia mundialmente na Netflix em 16 de setembro.





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