• YouTube
  • Twitter
  • Instagram

© 2019 por The Feminist Patronum.

A romantização dos relacionamentos tóxicos no meio midiático



A repercussão dos relacionamentos abusivos na mídia nos acompanha desde muitos anos. São relacionamentos fictícios que retratam perfeitamente a nossa realidade, e que infelizmente, passam despercebidos pelos espectadores.


É possível citar diversos exemplos famosos de casais muito queridos, principalmente pelo público adolescente, que demonstram diversas falhas em relação a esse tipo de comportamento num relacionamento amoroso, e que por serem considerados ideais ou românticos, são muitas vezes levados para a realidade.


Acho que todos conseguem lembrar do grande “boom” que foi o lançamento dos filmes da Saga Crepúsculo, e como o casal Bella Swan (Kristen Stewart) e Edward Cullen (Robert Pattinson) eram romantizados, principalmente por ser um romance aparentemente impossível. Edward era um vampiro encantador de aproximadamente cem anos de idade, e Bella, uma humana adolescente, fato que muitas vezes a colocava em perigo por expô-la a situações que não eram compatíveis com o seu mundo, o que cativava qualquer um que assistisse aos filmes da franquia.


O que muitos não pararam para pensar, é que esse mesmo mocinho da trama foi abusivo com a protagonista, pois se tratava de um perseguidor. Utilizando o amor como desculpa, por diversas vezes, Edward aparecia no quarto de Bella enquanto a mesma dormia para observá-la, a seguia pela cidade e aparecia em diversos ambientes que ela frequentava só para “saber se ela estava bem”.


Além disso, em diversas ocasiões, ele diz que tem sede do sangue de Bella... Situação confortável, não? Em resumo, é um relacionamento bem creppy, onde o vampiro tem comportamentos obsessivos e possessivos em relação à amada, e ela, se submete a situações de ameaça à própria vida para se manter perto de Edward.



Narrativa inspirada em alguns traços do romance de Stephenie Meyer, a trilogia de E.L James é um exemplo claro do que pode ser um relacionamento abusivo.


Trata-se da “história de amor” entre um magnata e experiente homem da cidade, Christian Grey (Jamie Dornan) e uma jovem virgem inocente, Anastasia Steele (Dakota Johson). Assim como em Crepúsculo, Christian fica fascinado com Anastasia e passa a persegui-la e assedia-la, até que a mesma inicie um relacionamento com ele. Porém, logo se revela um grande exemplo de abusador: extremamente ciumento, possuidor de um temperamento imprevisível que o levava a agredir Anastasia verbalmente, que recorre àquela famosa técnica do gaslighting (abuso psicológico) para mantê-la sob controle, invadia sua privacidade entrando em suas redes sociais, e além disso, para os esquecidos, chega a comprar o escritório que Anastasia trabalhava sem ela saber, para elevá-la de posição em pouquíssimos meses como se ela não fosse capaz de ascender sozinha, fazendo-a se sentir incapaz.


Como se não bastasse, há um episódio em que Grey entra na casa de Ana de repente insinuando que quer fazer sexo, ela diz que não quer algumas vezes, e ele continua batendo na mesma tecla, até que a mesma cede... Sabem o nome disso? Isso mesmo, ESTUPRO! Mesmo que Ana tenha cedido em algum momento, não houve uma vontade inicial. Além do mais, existia um contrato entre os dois, nesse contrato, existiam cláusulas que ditavam como Anastasia deveria se alimentar, os exercícios físicos que deveria praticar, quais partes do corpo de Christian não eram permitidas tocar e as práticas sexuais que ele gostaria de realizar, ou seja, Steele era tratada como se fosse uma mercadoria.


Em diversas ocasiões a personagem é manipulada psicologicamente, e isso se torna explícito quando ela concorda em visitar o quarto vermelho apenas para agradar Christian, mesmo não estando preparada. Nesse quarto, é submetida a agressões, enquanto seu sádico companheiro sente prazer. Vendido como um romance com traços eróticos, o filme ganha destaque por atiçar sexualmente grande parte do seu público, conseguindo assim mascarar suas características abusivas e o quão tóxica a trilogia é.



Não poderíamos deixar de citar esse casal “incrível”. Coringa e Arlequina são um dos maiores exemplos de onde um relacionamento abusivo pode chegar, desde as HQ’s, até as telas de cinema, onde foram recentemente representados no filme Esquadrão Suicida (2016) por Margot Robbie e Jared Leto.


A história dos dois é bem perturbadora, já que desde o início, o comportamento abusivo do Joker é nítido. Para quem não sabe, quando o Coringa foi para o Arkham, Harleen Frances Quinzel era uma doutora que trabalhava no local, e acabou conhecendo o protagonista e sendo altamente manipulada por ele, levando-a a ajudar em sua fuga do asilo psiquiátrico e consequentemente, fazendo-a se apaixonar. Quando os dois saem juntos do local, Coringa leva Harleen até a Química Ace, e a empurra num tonel de ácido, fazendo-a perder sua identidade e mudando sua aparência (no filme Esquadrão Suicida, essa cena é altamente romantizada, já que Harley Quinn se joga no tonel como prova de amor).


Em diversas edições das HQ’s, Harley é agredida verbalmente e fisicamente por Joker, e apenas depois de um longo tempo, eles dão um final agradável para a personagem, que consegue superar o relacionamento abusivo e seguir em frente. Entretanto, há uma grande legião de fãs que romantiza o casal, principalmente no mundo nerd. O fato de brigarem tanto e estarem unidos para fazer o mal, os torna interessantes e ganha o coração de grande parte do público, fazendo-os acreditar que “eles se amam e é isso que importa”, o que é bastante errado.



FRIENDS é uma das séries mais amadas e divertidas da história, e com isso todo mundo concorda, né? Grandes casais saudáveis como Mônica e Chandler, Carol e Susan e Phoebe e Mike surgiram durante a narrativa, nos proporcionando risadas, choros e aquecendo nossos corações, porém, o grande foco não é nenhum deles. Ross e Rachel, o casal mais superestimado da série, que sempre chamou a maior atenção desde o começo, era abusivo.


Como todos sabem, desde a época do colégio, Ross tinha um crush em Rachel, que assim que se reencontrou com os amigos no 1º episódio da série, se reacendeu. Além disso, é importante ressaltar que, no princípio da série, Rachel era totalmente dependente do pai, não tinha o próprio dinheiro, e nem sabia o que era trabalhar. Era fofo no início, e todos torciam pela união do casal, até que finalmente rolou o primeiro beijo, fazendo tanta gente vibrar e shippar mais ainda os pombinhos.


Rachel trabalhou no Central Perk para iniciar seu projeto de independência, e logo depois de um tempo, conseguiu um emprego na área que lhe atraía, a Moda. Quando isso aconteceu, Ross começou a morrer de ciúmes de seu trabalho, e consequentemente do seu chefe. Em todas as oportunidades que tinha, Ross marcava território que nem louco, além de ligar inúmeras vezes ao dia e protagonizar diversos episódios humilhantes.


Depois de tantos episódios ridículos que aborreceram Rachel, ela resolve pedir um tempo, o que leva Ross a agir de maneira bastante infantil, e no mesmo dia fica com a moça da xerox (e é desse episódio que surge a famosa discussão se houve traição por parte de Ross ou não). Depois desse momento pensamos que é o fim do casal, porém... não!


Posteriormente, o relacionamento dos dois tem diversas idas e vindas, (SPOILER ALERT!) o que faz com que tenham uma linda filhinha e acabem “juntos” no final, o que infelizmente atrapalhou uma oportunidade incrível que Rachel tinha de trabalhar na Europa, apenas para ficar com Ross. É bom lembrar também daquela listinha super maldosa que ele fez destacando os defeitos de Rachel, incluindo “é apenas uma garçonete”, o que deixou Rachel muito magoada. No fim das contas, Ross estava sempre tentando diminuir a “amada” por suas escolhas, seu emprego, ou o que ele, no seu alto nível de arrogância considerava inferior.



E quem não conhece Alex Vause (Laura Prepon) e Piper Chapman (Taylor Schilling)? As duas protagonizam uma das séries mais famosas da Netflix, Orange is The New Black, e fazem grande sucesso por serem um casal lésbico na série. Entretanto, podem ser analisadas diversas problemáticas nesse relacionamento, inclusive, começa errado, já que é por ele existir que elas acabam na prisão.


A má influência que uma exerce sobre a outra é muito grande, e mesmo quando estavam em liberdade, o namoro já era péssimo (Piper traía o namorado Larry com Alex). Alex era traficante e acabou trazendo Piper para o seu mundo, e quando foi presa, dedurou a namorada para ela vir junto. Na cadeia as coisas não eram muito diferentes, já que em uma das temporadas Alex tem a chance de sair de seu confinamento, mas Piper altera seu depoimento, que era essencial no julgamento, para ela voltar. E adivinhem só? Por amor, porque não queria ficar sozinha.


Não há diálogo e nem confiança, e constantemente se usam para conseguir as coisas, inclusive sexo. Não conseguem manter o relacionamento sem se alfinetar o tempo todo, e por último, mas não menos importante, há traição. Quando finalmente se assumem como namoradas, Piper se mostra completamente egoísta aos problemas de Alex e não permanece do seu lado, além de traí-la com Stella, personagem de Ruby Rose. É bem decepcionante como o relacionamento das duas é retratado, pois já existem poucos casais homossexuais na TV, e quando finalmente ganham esse espaço e representatividade, é através de um relacionamento abusivo.



Uma série bastante popular principalmente entre os adolescentes, The Vampire Diaries, construiu sua popularidade com base em um grande drama: a escolha de Elena Gilbert (Nina Dobrev) entre os irmãos Salvatore.


Desde o primeiro episódio, Damon (Ian Somerhalder) é retratado com um homem egoísta, nem um pouco empático, explosivo e temperamental, ao contrário de seu irmão, Stefan (Paul Wesley), que no início é o namorado de Elena. Ao longo das temporadas, Gilbert começa a desenvolver sentimentos por Damon, mesmo que ele seja responsável pela morte de seu irmão e de sua melhor amiga (algo bem bizarro).


Os problemas não param por aí: em diversos momentos da série, Damon interfere no livre arbítrio e na memória de Elena, e querendo ou não, isso o torna um homem manipulador. Além disso, o namoro dos dois também começou de forma errada, já que para acontecer, Damon não pensou na felicidade do próprio irmão. Ao longo das últimas temporadas, quando o casal já estava junto, Damon continuava a se comportar de maneira esquisita, ameaçando matar várias pessoas do círculo de convivência de Elena, chegando a matar uma delas, e mesmo assim a namorada.


Resumindo: muita gente shippou, muita gente curtiu e ficava louca com a tensão sexual dos personagens antes de conseguirem ficar juntos, mas mais uma vez nos deparamos com um casal que possuía um relacionamento abusivo.


É de suma importância que esse tipo de assunto seja abordado em todos os ambientes que nos cercam, seja a faculdade, a escola, a família e o ciclo de amizades, pois a maioria das vítimas (tanto na vida real, quanto na ficção) muitas vezes não percebem que estão presas nesse tipo de relacionamento.


Além disso, vale lembrar que relacionamento abusivo não é apenas aquele onde ocorre agressão física, mas principalmente psicológica. Se seu/sua parceiro(a) te manipula, é extremamente egoísta e ciumento, te faz sentir inferior e te põe em situações que você se sente errado, costuma mentir com frequência, diz que se arrepende mas persiste no erro, procura afastar você de seus amigos, desconfie... E se afaste.


Esteja atento aos sinais, e aceite que você merece muito mais do que o desgaste de um relacionamento desses.



Escrito por Yasmim Cardoso

nossa equipe tfp.png