A Garota Dinamarquesa: Livro vs Filme | Entrevista com o autor

O livro que inspirou o filme é baseado na história de Einar Wegner, um renomado pintor dinamarquês. A narrativa se inicia com o casal de pintores - Einar e Greta - em sua casa. Enquanto Greta tenta finalizar seu quadro, pede que o marido vista as meias e o sapato utilizados pela cantora de ópera e amiga do casal, Anna. Einar se incomoda com o pedido, mas atende o pedido da esposa por amá-la muito.


Vestir as meias e calçar os sapatos não é o suficiente para Greta, que pede para que ele coloque o vestido para que possa ver o caimento da barra. Neste momento, Anna chega e ri da cena “Por que não chamamos você de Lili”.

Aquela noite fica repassando na mente de Einar e seu comportamento muda um pouco, ele passa a ter uma inquietude e se vestir de Lili às vezes. No início, Greta pensava que aquilo era apenas uma brincadeira, mas conforme o aumento na frequência não compreendia o motivo.

Ao se vestir de Lili, Einar deixava de existir, como se realmente uma segunda pessoa desflorasse de forma a anular o ser primário. E isto é algo muito apontado no livro, de forma que os momentos vividos como Lili, ao voltar a ser Einar não se recorda, e os acontecimentos do passado de Einar, é recordado como se memórias distantes, contadas por uma terceira pessoa.


“Sabia que não conseguiria deter Einar. Sabia, pelo que acontecera com Henrik, que Lili tinha vontade própria.”.

Conforme a narrativa evolui mais mais Einar se convence de que algo está errado. Isso também é notado por Greta, quando o marido para de pintar, além de sentir que não devesse tocá-lo mais.

A existência de Einar se torna mais difícil. Está cada dia mais triste e magro, com o aspecto de doente. Isto também afeta Lili, que passa ter recorrentes sangramentos, o que preocupa Greta. A primeira vez que Lili sangra é durante uma festa, quando está conversando com Henrik, um pintor que se aproximou dela, encantado por sua beleza. Lili, por mais insegura que seja se aventura, saindo escondida com Henrik, por realmente estar apaixonada.

O casal Greta e Einar, antes de tudo são melhores amigos, confidentes e sabem tudo (ou quase) da vida um do outro. Esta relação é mantida durante e após a transição de Lili, Greta é a única pessoa que passa segurança, ajuda e a protege.


“(...) recebia Lili como se fosse uma amiga estrangeira divertida.”.

Einar e Greta, se mudam para Paris, lá Greta é agenciada por Hans, amigo de infância de Einar, que passa a vender os retratos de Lili e ganha certo reconhecimento, de forma precisa constantemente de sua presença para atender às recomendas.

Embora Hans fosse um amigo do passado de Einer, a amizade entre ele e Greta cresceu. Lili em alguns relances esboça ter interesse em Hans, mas não esse sentimento não é real. Por outro lado, Hans está mais presente na vida deles e para Einar é o amigo que precisava para contar aquilo que diz à Greta, pois não sente confortável.

Assim como a presença de Hans é fundamental para Greta, Einar e Lili, outra pessoa que ao longo da história passa a ser muito presente e dá todo o suporte necessário é Carslile, irmão gêmeo de Greta.


Quanto mais Lili aparecia, mais Einar desaparecia, mas viver uma duplicidade a incomodava. Tinha de decidir de vez como viver, se era como Lili ou Einer.

Greta e Einer foram atrás de médicos, para saber se havia algo de errado com ele, pois sentia que havia nascido no corpo errado, era uma mulher no corpo de um homem. As passagens por diversos consultórios sempre eram péssimas, carregadas de más notícias e diversos diagnósticos (inclusive esquizofrenia). Até que Anna menciona apresenta à Greta o professor Bolk, que dizia ter a solução apropriada à situação de Einer: transformá-lo, de uma vez por todas em mulher, fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Mas a decisão tinha de ser única e exclusiva de Einer, afinal não tinha como voltar atrás.

Levou algum tempo até que Einar tomasse a decisão de realizar a cirurgia, pois seria a primeira vez que um procedimento desta dimensão seria realizado. Sua esposa desenvolveu um papel muito importante neste período, pois o acompanhou completamente. Para ela não foi fácil, ver seu marido partir. Diferente dos casos de hoje, que na maioria das vezes as pessoas que fazem este tipo de cirurgia são solteiras. “Greta jamais rejeitara Lili.”.

Einar viajou até a Alemanha para realizar a cirurgia sozinho, eram os últimos momentos de vida de Einer Wegner. Einer se instalou na Clínica Municipal Feminina de Dresden, onde realizaria duas cirurgias, uma para restaurar os ovários que Einar tinha e remover as gônadas e a segunda para remoção do pênis.

Com as cirurgias realizadas, Lili e Greta voltam à Dinamarca. Lili volta a se encontrar às escondidas com Henrick e começa a trabalhar em uma perfumaria.

Lili está feliz, mas não por completo, seu desejo agora é de um dia se casar e poder ser mãe. O casamento, estava se encaminhando. Enquanto se adaptava à sua nova rotina, Lili trocava cartas com o professor Bolk, que dizia ser capaz e a tornar fértil, realizando uma terceira cirurgia: para implantar um útero.

Quando finalmente Lili conta a respeito da terceira incisão que Bolk deseja fazer, Greta é contra. “Acho que isso é um erro. Não vou ajudar você a cometer um erro”. Mas a decisão já havia sido tomada por Lili e desta vez quem a acompanha é Carslile.

Lili faz a última cirurgia e quase não fica acordada, não há prospecção de recuperação. Embora não diga de forma clara a morte de Lili, a descrição é muito bonita e transmite, mesmo com toda a tristeza, um alívio em ter tido sucesso naquilo que buscava. É uma descrição repleta de sentidos. Na história real, Lili morreu por complicações em decorrência à esta terceira cirurgia.

O tom da escrita é bem suave, quase poético, apesar de ser um drama é contado de forma tranquila, pensado em transpassar toda a emoção descrita.

O filme


O filme é bem semelhante ao livro, claro, bem encurtado e com a ausência de personagens que no livro tem grande relevância (como Carslile), mas resume muito bem a história.

Dirigido por Tom Hooper, o drama leva o nome original de Greta: Gerda Wegner. David Ebershoff, autor do livro optou por utilizar um nome fictício, pois adicionou histórias na vida de Gerda, misturando ficção com realidade.

Algo que não me agradou no filme foi a mudança de personalidade de Greta, que no livro é decidida e apoia completamente o desejo de Einar, no filme em diversos momentos questiona essa decisão.

Não poderiam ter escolhido pessoa melhor para interpretar Einer e Lili quanto Eddie Redmayne (Newt em Animais Fantásticos e Onde Habitam). O ator consegue interpretar a ambiguidade, as dúvidas e inseguranças vividas pelos personagens, assim como a beleza de Lili.

A cena em que Lili e Henrik se encontram e, ao se beijarem, Henrik exclama “Ah Einer”, é um tanto agressiva em comparação com o livro, ao meu ver foi uma solução mal feita, de forma que desrespeitou a personalidade de ambos personagens. Na escrita Lili quer ser honesta e contar quem é, mas Henrik diz já saber e estava tudo bem, isso a assustou, mas não importava.

Embora as diferenças, o filme é bom sim, e para quem não tem tanta proximidade com a leitura compreende e se emociona com a história. Mas não posso deixar de dizer que no livro você é levado à inúmeros sentimentos, sensações e - por que não - sabores não apresentados na filmografia.

Na dúvida, leia e assista.


Entrevista com David Ebershoff, autor do livro e consultor do roteiro do filme

O David veio para São Paulo (em julho de 2019) a convite da Editora Rocco e liderou uma roda de conversa sobre o mundo LGBTQ+ na literatura, e claro, a equipe do The Feminist Patronum aproveitou para entrevistar brevemente o autor renomado.


The Feminist Patronum: Oi David, tudo bem? Seja muito bem-vindo ao Brasil, o que está achando do país?


David Ebershoff: Oi Alice, tudo ótimo e com você? Eu estou adorando o país, todos são muito receptivos e calorosos.


The Feminist Patronum: Bom, não temos muito tempo, então vou direto para as perguntas. Como foi pra você escrever um livro que sai completamente da sua zona de conforto? E como foi ver a obra ganhando tanta visibilidade em cima de um assunto tão delicado como a transição de Lili?


David Ebershoff: Bom, antes de escrever o livro, eu passei anos pesquisando a verdadeira história de Lili e absorvendo o máximo de informações possíveis, para que ficasse o mais próximo da realidade, mas não tinha como escrever os pensamentos de uma pessoa trans sendo que sou um homem cis, chegou em um ponto que minha pesquisa não estava só focada em Lili, mas em sim como poderia trazer um livro verdadeiro e sincero para o mundo.

Foi incrível ver o livro ganhando visibilidade, e participar do filme ainda é algo bem surreal.


The Feminist Patronum: Me lembro que na época do Oscars o filme sofreu várias acusações de transfobia e sobre o Eddie Redmayne não ser qualificado o suficiente para interpretar Lili, já que ele é um homem cisgênero. Como ator da obra, o que você acha disso tudo?


David Ebershoff: Bom, Eddie Redmayne e Alicia Vikander no elenco são um dos motivos do filme ter feito tanto sucesso, afinal Alicia até recebeu um Oscar de Melhor Atriz por sua performance, então sou muito grato por ambos se dedicarem tanto no trabalho. Claro que em um mundo perfeito Lili seria interpretada por uma mulher trans e teria o mesmo reconhecimento que Eddie, mas não vivemos em um mundo perfeito e escolhas precisam ser feitas.



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